Irmão de secretário de Saúde de Alagoas fura fila de testes da covid-19 “por ser autoridade”

Irmão de secretário de Saúde de Alagoas fura fila de testes da covid-19 “por ser autoridade”

Na semana em que se acumulam 3.212 casos e 187 mortos pela covid-19, e quando leitos de UTI para tratar a covid-19 superaram o percentual de 70% de ocupação, o prefeito de Marechal Deodoro (AL), Cláudio Roberto Ayres da Costa, o “Cacau Filho” (PSD), foi favorecido pela condição de autoridade pública para agilizar sua testagem no Laboratório Central de Saúde Pública de Alagoas (Lacen/AL), na última terça-feira (12). O político é irmão do secretário de Saúde do governo de Renan Filho (MDB), Alexandre Ayres, cuja pasta confirmou a concessão do privilégio ao prefeito, que recebeu em apenas 24h o resultado positivo para a covid-19.

Ao divulgar o resultado nas redes sociais, na quarta-feira (13), o político relatou que teve “o corpo febril”, fez teste rápido com resultado negativo na semana passada, e ao fazer uma tomografia na segunda-feira (11) foi detectado “um pequeno comprometimento no pulmão”, por isso fez o teste na terça-feira (12). Até esta sexta-feira (15), o prefeito cumpre isolamento em casa e segue recomendações médicas. Felizmente para sua saúde, seu quadro de saúde teve e ainda tem características bem diferentes das elencadas pela direção do Lacen como critérios de prioridade para a realização dos testes.

A dimensão do privilégio concedido a Cacau Filho é evidenciada pelos números dos boletins epidemiológicos emitidos pela pasta de seu irmão do secretário. No dia em que o Lacen emitiu o resultado do teste de Cacau Filho, havia em Alagoas 1.253 casos suspeitos de pessoas, que vivem a angústia da fila de espera pelo diagnóstico de testes realizados ou ainda agendados. Nesta sexta, dois dias depois, o estoque de casos suspeitos subiu para 1.624.

Ainda assim, a Secretaria de Saúde de Alagoas respondeu ao Diário do Poder que tal testagem “em nada atrapalhou o fluxo de 200 exames/dia realizados pelo Laboratório Central de Alagoas”.

Para quem tem prioridade de acordo com suas condições de saúde, a previsão de receber o resultado do exame da covid-19 é de até 48 horas. Mas como a procura aumentou esse prazo está sendo extrapolado para a população.

Regalia denunciada e minimizada

A pasta comandada pelo irmão do prefeito vê com naturalidade o privilégio concedido ao prefeito, por se tratar de uma autoridade: “A Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) informa que o prefeito de Marechal Deodoro, Cláudio Roberto Ayres da Costa – Cacau, apresentou os sintomas semelhantes ao Covid-19 e, por se tratar de uma autoridade pública do município com o segundo maior número de casos do novo coronavírus em Alagoas – são 72 casos com seis mortes até esta sexta-feira (15), foi solicitada à direção do Lacen a realização do teste PCR”, disse a nota enviada para a reportagem.

A conclusão é bem diferente da exposta pelo gerente do Lacen, Anderson Leite, quando alertou sobre os casos que devem ser priorizados nos testes para diagnosticar a covid-19.

“É preciso usar da forma mais responsável possível, quando eu realizo coleta de um paciente que naquele momento não tem como critério a realização do exame RT-PCR (exame utilizado para diagnóstico da Covid-19) eu estou utilizando um material que poderia ser usado na UTI ou de quem está num leito de retaguarda clínica, que é um paciente que precisa de um cuidado mais avançado do que aquele que pode ser acompanhado ambulatorialmente”, disse o gestor do laboratório estadual, em entrevista à TV Gazeta, na terça-feira (13).

Os privilégios para a testagem para o novo coronavírus já foram denunciados pelo deputado estadual Davi Maia (DEM-AL), que acusou o governo de Renan Filho de promover “politicagem dentro do Lacen”.

“Enquanto isso, pessoas comuns, que não estão na lista, contaminam outras pessoas sem saber que estão com o vírus. Tenho em mãos pelo menos três exames positivos que comprovam o que estou falando. São pessoas que demoraram de 15 a 30 dias para saber do resultado e ficaram disseminando o vírus em todo o Estado, tudo isso por ingerência política no Lacen”, afirmou o parlamentar em pronunciamento na ALE no fim de abril.

A Secretaria de Comunicação de Marechal Deodoro disse ao Diário do Poder que não conseguiu obter respostas do prefeito Cacau Filho para os questionamentos enviados pela reportagem.

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